domingo, 31 de janeiro de 2010

ABDIAS DO NASCIMENTO!!!

"Sempre que penso em Abdias do Nascimento o sentimento que me toma é de gratidão aos nossos deuses por sua longa vida e extraordinária história fonte de inspiração de todas as nossas lutas e emblema de nossa força e dignidade.

A história política e a reflexão de Abdias do Nascimento se inserem no patrimônio político-cultural pan-africanista, repleto de contribuições para a compreensão e superação dos fatores que vêm historicamente subjugando os povos africanos e sua diáspora. Abdias do Nascimento é a grande expressão brasileira dessa tradição, que inclui líderes e pensadores da estatura de Marcus Garvey, Aimé Cesaire, Franz Fannon, Cheikh Anta Diop, Léopold Sedar Senghor, Patrice Lumumba, Kwame Nkruman, Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Steve Biko, Angela Davis, Martin Luther King, Malcom X, entre muitos outros.
A atualidade e a justeza das análises e das posições defendidas por Abdias do Nascimento ao longo de sua vida se manifestam contemporaneamente entre outros exemplo, nos resultados da III Conferência Mundial Contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, ocorrida em setembro de 2001, em Durban, África do Sul, que parecem inspiradas em seu livro O Genocídio do Negro Brasileiro (1978) e em suas incontáveis proposições parlamentares.

Aprendemos com ele tudo de essencial que há por saber sobre a questão racial no Brasil: a identificar o genocídio do negro, as manhas dos poderes para impedir a escuta de vozes insurgentes; a nos ver como pertencentes a uma comunidade de destino, produtores e herdeiros de um patrimônio cultural construído nos embates da diáspora negra com a supremacia branca em toda parte. Qualquer tema que esteja na agenda nacional sobre a problemática racial no presente já esteve em sua agenda política há décadas atrás, nada lhe escapou. Mas sobretudo o que devemos a ele é a conquista de um pensar negro: uma perspectiva política afrocentrada para o desvelamento e enfrentamento dos desafios para a efetivação de uma cidadania afrodescendente no Brasil, o seu mais generoso legado à nossa luta."

Sueli Carneiro in Abdias do Nascimento: o Griot e as Muralhas - Biografia de Abdias do Nascimento organizada por Éle Semog


Conheça também biografia de Abdias do Nascimento

TERREMOTO HAITI: Médicos cubanos no Haiti continuam salvando vidas!!!

Por volta de 500 colaboradores da Ilha oferecem sua ajuda nos lugares de mais difícil acesso desse país • Na cidade de Gonaïves, danada fortemente pela tempestade Jeanne, trabalha uma brigada de 64 integrantes


OS 64 membros da Brigada Médica cubana que presta seus serviços na cidade haitiana de Gonaïves, prejudicada severamente pela tempestade tropical Jeanne, «gozam de muito boa saúde e, aliás, dobraram o ritmo de sua valiosa ajuda», informou, em 30 de setembro, o chefe em funções do Departamento de Cooperação Internacional do Ministério das Relações Exteriores (Minrex), Enrique Orta González.

cuba-haiti













Brigada médica cubana: atendimento
a mais de 12 mil haitianos
desde 25 de setembro passado



Cidade portuária do Haiti, situada o noroeste do país, nesta temporada de furacões e tempestades severas, Gonaïves sofreu intensas enchentes, que mataram mais de 2 mil pessoas e deixaram milhares de desaparecidos.

A diretora executiva da Unicef, Carol Bellamy, disse em 30 de setembro, em Porto Príncipe, que «pelo menos 8 mil pessoas estão vivendo em refúgios temporários em Gonaïves. Não têm nada. Perderam tudo com as enchentes. E anunciou que a Unicef pedira em Nova York «maior atenção e apoio para esta emergência», já que a população de risco em Gonaïves inclui 30 mil crianças menores de cinco anos e 8 mil mulheres grávidas ou em período de lactação.



«Inclusive, antes da crise atual, as crianças do Haiti eram das mais vulneráveis do mundo», sublinhou, por seu lado, o representante dessa organização no Haiti, Francoise Gruloos Ackermans.



Em imagens difundidas pela tevê pode-se enxergar desordens e brigas criadas pela pobreza e os sofrimentos dos habitantes desse país, desesperados por beneficiarem da ajuda internacional, agravada pelas adversidades do clima. Apesar de tudo, o funcionário do Minrex garantiu que «nem um só colaborador sofreu uma arranhadura».



«Nossos médicos, devido ao prestígio e carinho ganhos por seu trabalho humanitário e solidário, estão protegidos pela própria população e mantêm as reservas requeridas de remédios e alimentos para seu desempenho eficaz.



«Seus familiares», destaca Orta, «podem ficar satisfeitos e tranqüilos e souberem que, apesar de eles estarem em condições de trabalho difíceis, pelas áreas onde oferecem seu atendimento - as mais afastadas e desabrigadas - são atendidos de forma sistemática e recebem o apoio necessário do ministério da Saúde desse país, da Cruz Vermelha e dos mais altos dirigentes de nossa nação.



Quando começaram as enchentes, foi criado um posto de comando (Coordenadora Nacional, em Porto Príncipe), para manter comunicação constante com os colaboradores de Gonaïves, a cidade mais afetada pelas chuvas torrenciais, com o objetivo de garantir, em primeiro lugar, a proteção de suas vidas. «Porém, não houve que fazer nenhuma evacuação apesar de que, segundo informação recebida, a água chegou a atingir quase 1,5 metro de altura».



Imediatamente, os colaboradores acometeram a tarefa de prestar a máxima ajuda à população nos trabalhos de saneamento e de divulgação (promoção de saúde), pela rádio e outros meios, acerca das medidas a serem adotadas para prevenir epidemias, bem como atender diretamente a população. Ainda, começaram o resgate dos instrumentos e aparelhos das áreas que eles atendem, incluindo os do hospital La Providence, de Gonaïves, grande número dos quais «ficaram sepultados na lama».



Engenheiros em eletromecânica, que fazem parte das brigadas médicas cubanas são os responsáveis pela reparação e recuperação desses equipamentos.

Neste momento, em Gonaïves, a brigada dividiu-se em vários grupos que atendem diferentes pontos da cidade, oferecendo atendimento médico num hospital de campanha, em três clínicas móveis, num local de uma ONG e em duas igrejas que albergam inúmeros evacuados. O hospital de campanha dispõe de um salão de partos, funcionando em sua capacidade plena, no qual trabalham especialistas em obstetrícia, cirurgia e ortopedia.



Desde 25 de setembro até à data, tinham sido atendidos mais de 12 mil haitianos, principalmente com febre e tosse, afecções da pele e traumatismos.

No Haiti, integram o Programa Integral de Colaboração (PIS) mais de 500 trabalhadores da saúde que prestam sua ajuda nos lugares mais inacessíveis desse país.



A colaboração médica de Cuba com outros países começou na década de 60 do século passado, com o envio à Argélia de uma brigada de médicos. Mas em 28 de setembro de 1998, após a passagem pelo Caribe do furacão Georges, o presidente Fidel Castro expôs a idéia de um programa integral de saúde para o Haiti.



Posteriormente, veio o oferecimento de enviar gratuitamente milhares de médicos cubanos à América Central, vítima também do pior desastre natural acontecido nessa região nos últimos dois séculos: o furacão Mitch.



Neste momento, com o programa PIS, 2 600 médicos trabalham com as populações mais necessitadas de 24 países e realizam trabalhos de formação de recursos humanos para garantir o desenvolvimento sustentável da saúde em nações pobres.



Nos países africanos existem três faculdades de Medicina com professores cubanos: Guiné Equatorial, Gâmbia e Eritréia, esta última a mais recentemente criada, com uma matrícula total de 400 alunos nos diversos anos da carreira.



Ao mesmo tempo, estudam em Cuba 17 700 bolsistas de 15 nações, em mais de 30 especialidades.



O Departamento de Cooperação do Minrex pôs em destaque o alto sentido altruísta de nossos trabalhadores da saúde. Após se conhecer o estado de emergência surgido no Haiti, os médicos que estavam de férias em Cuba suspenderam seu descanso e por próprio pedido se reincorporaram a seu trabalho nesse país caribenho.

Fonte: Granma.cu

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

FERROESTE E EXERCITO PLANEJAM A FERROSUL!!!

Ferroeste e Exército discutem
a criação da Ferrosul


¨A posição do Governo do Paraná e da Ferroeste é que a criação da Ferrosul fortalece o projeto de construção dos novos trechos para os demais Estados do Sul. O Exército está indissociavelmente ligado ao projeto desde a sua origem e queremos que continue cumprindo a sua missão¨, afirmou o presidente da Ferroeste, Samuel Gomes, nesta sexta-feira, 22, em Brasília, onde esteve reunido com o chefe do Departamento de Engenharia e Construção (DEC) do Exército, general Ítalo Forte Avena. Na ocasião, Gomes entregou a Resolução do Codesul, o parecer técnico do Grupo de Trabalho criado pelos governadores e outros documentos relativos à criação da Ferrosul.
No encontro foi discutida a celebração de um protocolo a ser firmado entre o Governo do Paraná e o Ministério da Defesa para que o Exército participe dos estudos de engenharia e da construção dos novos ramais. O Exército deverá coordenar a construção de todos os 1.365 km de novas ferrovias e construir diretamente alguns trechos. O início previsto das obras é 2011 e deve ser concluído em dois anos.
O plano de trabalho elaborado pelo Exército e Ferroeste prevê que a construção será feita em módulos de 50 km. Gomes reiterou que os estudos de engenharia são para trilhos em bitola mista (métrica e larga) e incorporando também o transporte de passageiros. O acordo entre Ferroeste e Exército, autorizado pelo governador Roberto Requião, deve ser assinado em fevereiro.
No encontro de Brasília, o Exército definiu um representante junto à Ferroeste para acompanhar a transferência de R$ 30 milhões do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) destinados pelo Ministério dos Transportes aos projetos da Ferroeste. Os recursos serão transferidos através da Valec, sócia da Ferroeste e responsável pela expansão das ferrovias federais. O dinheiro será utilizado na atualização de projetos de engenharia dos novos ramais que compõem o trecho Maracaju (MS)/Porto de Paranaguá.
¨O Exército e a Ferroeste estão trabalhando em sintonia há mais de um ano¨, ressaltou Gomes. Em agosto de 2009, em um helicóptero militar, a Ferroeste, o Ibama, o Exército e a Mineropar, depois de 20 horas de vôo e 2.500 quilômetros percorridos, concluíram o trabalho de vistoria ambiental aérea, necessário para o licenciamento ambiental dos projetos, pelo Ibama/DF. Na vistoria, técnicos militares também fizeram a prospecção de engenharia dos novos ramais. A recente parceria entre Ferroeste e Exército começou no I Seminário Técnico de Planejamento da Expansão da Ferroeste, em 18 de dezembro de 2008, em Curitiba. Depois disso aconteceram vários encontros.
O trecho de 248 quilômetros de linhas da Ferroeste entre Guarapuava e Cascavel foi construído pelo Exército entre 1991/94 durante o primeiro mandato do governador Roberto Requião. ¨Não fosse o Exército se somar ao Paraná, a ferrovia não teria sido construída¨, disse Gomes. Para o general Avena, a expansão da ferrovia é encarada atualmente ¨como a obra principal do Exército¨. Segundo o presidente da Ferroeste, ¨a importância da renovação da parceria com o Exército está na garantia de qualidade da ferrovia a ser construída, nos custos reduzidos de construção, na valorização do Exército e do seu papel na sociedade¨.
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domingo, 24 de janeiro de 2010

TEATRO POLÍTICO EM CURITIBA!!! CPC DA UNE!!!

Publicado em Espetáculos, Índice por teatropolitico60 em 07/01/2010

Cena do espetáculo “A mais valia vai acabar, seu Edgar!”.

A partir dos textos redigidos por Vianinha nas décadas de 1960 e 1970, reunidos por Fernando Peixoto em 1983, é possível compreender o posicionamento e a insatisfação do dramaturgo frente à realidade do Teatro de Arena e, consequentemente, sua busca por uma nova forma de fazer teatro. Os atores do Arena já haviam encenado, no início da década de 1960, as peças: “Eles não usam Black Tie” , de Guarnieri, ” Revolução na América do Sul” , de Augusto Boal, e ” Chapetuba Futebol Clube”, de Vianinha. Para Vianinha, o Arena só poderia continuar trilhando o caminho a que se havia proposto desde o início se continuasse pensando e aprofundando discussões e estudos sobre a realidade social, sobre o homem brasileiro e seus problemas, e para tanto seria de extrema importância utilizar Marx como referencial:

“Nós fazemos um teatro determinista que se basta em seguir os processos e causas de um fato inevitável. Nada mais. Por que Marx? Por que estudar Marx e não Bergson? Estudar Bergson, também não nos basta. Vamos estudar o filósofo que funda sua filosofia nas relações de produção do homem e em cima da alienação. Vamos a Marx, não para esquematizar nossas ações, mas ao contrário: para liberá-las. Estou certo que nem esses motivos são suficientes. Só detesto que se deixe de estudar Marx por qualquer tipo de prevenção. Se me convencerem da importância de Bergson, vamos a ele. Mas, se para nós, tudo isso que está acontecendo reside principalmente na mais-valia, adeus Bergson. Vamos ao dono da bola e não ao roupeiro.”
Oduvaldo Viana Filho

A intenção de aprofundar a discussão sobre a realidade brasileira a partir do vocabulário marxista e o desejo de se relacionar com outras entidades políticas e culturais, imprimindo o engajamento do teatro em torno de projetos que propiciassem a politização da sociedade brasileira, levaram Vianinha deixar o Arena e escrever a peça sobre a mais-valia, um dos conceitos de referência da teoria marxista. Entretanto, faltava-lhe o aprofundamento teórico, o que o fez se aproximar do Iseb ( Instituto Social de Estudos Brasileiros), encontrando lá o sociólogo Carlos Estevam Martins, que o auxiliou elaborando um roteiro didático sobre o conceito e demais teses marxistas.

“A peça “A mais valia vai acabar, Seu Edgar”, é um musical que, por meio de humor, desenvolve a condição de explorador do capitalista e a situação de espoliado do operário, no âmbito moral, emocional, material, sexual, etc. No desenrolar do espetáculo, os operários passam a conhecer sua situação por meio da teoria da mais valia, que possibilitará a tomada de consciência e a organização da classe, permitindo no futuro, sua emancipação. As personagens são categorias sociais (os desgraçados e os capitalistas), que vivenciam, no palco, por intermédio de esquetes, situações nas quais a opressão se manifesta didaticamente. Vianinha, para tanto lançou mão de vários recursos técnicos (projeção de slides e cartazes para comentar ou ilustrar as situações apresentadas no palco) que foram desenvolvidos no teatro de agitação de Erwin Piscator, na Alemanha dos anos 20 e que hoje fazem parte da história da encenação ocidental.”
Rosângela Patriota

O êxito da peça no Rio, encenada num pequeno teatro da Faculdade de Arquitetura, atraiu muita gente identificada com o grupo que a encenou. Finda a temporada, para manter agregado o pessoal que havia se aproximado em função da peça, os promotores do espetáculo resolveram montar um curso de História da Filosofia, ministrado pelo jovem professor José Américo Pessanha. Como a platéia dos espetáculos era basicamente estudantil, procuraram a UNE para sediar o curso e a idéia foi bem recebida pela entidade, representada pelo seu presidente, o estudante Aldo Arantes. (BERLINCK, 1984, p. 24)

Sobre a idéia inicial do CPC, Carlos Estevam Martins relatou, em depoimento na década de 1990, que:

“A idéia de se criar o CPC junto com a UNE demorou uns seis meses após a apresentação da Mais Valia. Ela nasceu da reflexão sobre a heterogeneidade artística e cultural das pessoas que freqüentavam as apresentações da peça e depois passaram a fazer o curso de Filosofia. Foi feita a seguinte constatação: aqui tem gente de Teatro, Artes Plásticas, Cinema, de Música… Então, nós temos que manter essas pessoas unidas e criar condições para esse pessoal produzir. Colocou-se, de imediato, o problema de se ter um local para produzir. E alguém, que não me lembro quem foi, teve a idéia de dizer: Vamos procurar a UNE! Nós procuramos a UNE para montar o tal curso de filosofia e nesse contato a idéia foi crescendo. Já que há uma situação de heterogeneidade, vamos fazer um negócio multidisciplinar com as várias artes possíveis e, ao mesmo tempo, vamos expandir e levar até o povo. Então, combinavam-se as duas coisas: o objetivo inicial do Vianinha e Chico de Assis, que era ir buscar platéias populares e a possibilidade de se fazer uma arte popular, ou seja, chegar até o povo através da arte.”
Carlos Estevam Martins

Assim se formou o CPC, inicialmente como um projeto político-cultural que contou com a participação de várias pessoas, com destaque para Leon Hirszman, Carlos Lyra, Francisco de Assis, Vianinha e Carlos Estevam Martins.

“Havia música, e por isso convidei Carlos Lyra, um do iniciadores do movimento da bossa-nova, para compor as canções que o Vianinha tinha criado para a pela. Entendi que a Arena da Arquitetura, grande como era, devia ter um cenário monumental, e assim um grupo de estudantes de arquitetura passou a criar um cenário de 15 metros de altura com vários planos. Num deles iria ficar o conjunto musical, e nos outros se desenvolviam cenas. Também no plano do chão a peça se desenvolvia. Depois pensamos em usar cinema, e Leon Hirszman veio trabalhar com a gente. Depois do cinema inventamos slides e fomos inventando uma parafernália de meios que redundou numa revista musical. (…) Os ensaios eram abertos. ao público e pouco a pouco foi se formando uma platéia constante que comentava e discutia cada caminho que íamos tomando. Aprendemos a cantar e dançar e fomos chegando a um espetáculo definitivo. Depois de três meses de ensaio estreou a Mais Valia com o Teatro de Arena da Faculdade de Arquitetura lotado e largando gente pelo ladrão. Foi um susto, porque só tínhamos usado os meios mais precários de divulgação. Ao final da estréia houve muita empolgação e todos os sintomas mostravam que havíamos conseguido sucesso. Eu tinha afastado o Vianinha dos ensaios e ele viu a encenação pela primeira vez na estréia, com a platéia lotada. Como diretor estreante e inseguro eu achava que a presença do Vianinha nos ensaios poderia perturbar o meu trabalho. Mas levei aos ensaios meus colegas do Arena: Flávio Migliaccio, Milton Gonçalves, Henrique César, Arnaldo Weiss, Nelson Xavier. Discutimos com eles e aproveitamos idéias.”
(do dramaturgo e diretor da peça Chico de Assis em depoimento para o site de Carlos Lyra)

Link para letras das músicas produzidas por Carlos Lyra para o espetáculo

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“pátria o muerte!” – teatro do povo
Publicado em Espetáculos, Índice por teatropolitico60 em 16/08/2009


“Pátria o Muerte!”, espetáculo encendado pelo CPC/PR, em Curitiba em 1960. Ao centro, Euclides Coelho de Souza.

Em 1959, Euclides Coelho de Souza, mais conhecido hoje como Dada (do Teatro de Bonecos), na época aluno de Engenharia da Universidade Federal do Paraná, filiado ao PCB, era dirigente da juventude comunista em Curitiba e uma das tarefas a que se propôs foi a criação de um grupo de teatro com atores e estudantes. Com a contribuição da atriz e estudante de Medicina, Mariza de Oliveira e da advogada militante do partido, Terezinha Garcia, foi fundado o Teatro do Povo. Além dos fundadores, integraram-se às atividades do recém criado Teatro do Povo, Walmor Marcelino, Abaúna Bussmeyer, Oracy Gemba, Jiomar Turim, Mathias Werner, Jodat Nicholar Kury e Marly Correia de Oliveira. A primeira peça montada, ao final de 1960, foi “Patria o Muerte!”, de Oduvaldo Vianna Filho, que falava a respeito da Revolução Cubana.

A partir de uma notícia do jornal “O Semanário”, sobre a apresentação da peça de Vianinha (Oduvaldo Viana Filho) na frente do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Terezinha Garcia levou ao partido a idéia de divulgar no meio estudantil as ameaças de invasões dos Estados Unidos à Cuba, bem como discutir os princípios da Revolução Cubana, pouco divulgados pela imprensa curitibana. Segundo Euclides em depoimento nos anos 80, “o desejo inicial era levar teatro para o povo, e então levamos num caminhão a peça em vários bairros populares, mas nada sabíamos naquela época de teatro, nem mesmo de teatro popular. Desta primeira peça, divulgamos os acontecimentos cubanos e formamos um núcleo artístico e cultural do Partido.” (LEON, 1985)

Ao analisar a peça “Pátria o Muerte!”, encenada em Curitiba pelos integrantes do Teatro do Povo, o crítico teatral Edésio Passos, em 1960, traz de forma sintetizada de que maneira e com que objetivo o espírito revolucionário fora inserido no texto:

“Patria o Muerte quer mostrar, embora rapidamente, o sentido universal da Revolução Cubana. As contradições daquele país americano, de sua situação política e econômica, são mostradas de maneira a atingir especialmente aos que não se encontram entrosados no movimento libertador daquele povo. Oduvaldo não entra, no entanto na discussão de problemas profundos que atingem a citada revolução, mas quer fazer sentir a necessidade de outra pátria. Os contrapontos de sua rápida peça, a anteposição das vozes em coro, representando o povo e das banalidades e superficialidades de Batista e seus comandados são suficientes para, em meia hora, apresentarem a situação de como se desenvolveu a revolução.”
Edesio Passos, 1960

O jornal “Última Hora”, noticiou, no início de 1961, as atividades do Teatro do Povo, explicitando sua composição e objetivos:

“O Teatro do Povo, compõe-se exclusivamente de amadores e utiliza um caminhão fazendo as vezes de palco volante, o caminhão de modelo antigo pertence a um nacionalista que, nos dias de semana o utiliza para fazer fretes. O grupo é integrado por estudantes e professores, jornalistas e atores amadores. Foi fundado há um mês apenas e se propõe a levar peças de conteúdo social, educando e divertindo o público ao mesmo tempo. A peça Patria o muerte, é uma síntese da revolução cubana e satiriza o regime do ditador Batista e a política americana dos trustes. Os atores usam placas identificando-se e o povo como personagem faz o coro como fundo do diálogo. Cuba não será invadida – grita o coro no final, acrescentando que se Cuba for invadida será a Cuba de todos os cubanos de todo o mundo, defendida por todos os cubanos de todo o mundo.”

Link para download da dissertação de mestrado “Centro Popular de Cultura da UNE (1959-1964) – Encontros e desencontros entre arte, política e educação” de Ana Carolina Caldas, que inspira este projeto – arquivo word.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

POR QUÊ O HAITÍ É TÃO POBRE HOJE EM DIA???

Porque o Haiti é tão pobre



O evangélico norte-americano Pat Robertson afirmou em seu programa de televisão nos Estados Unidos que o Haiti está sofrendo as tragédias atuais porque no passado teria firmado um pacto com o demônio para que o país conseguisse vencer os franceses na luta pela independência.

Pat Robertson é herdeiro do preconceito de uma sociedade sulista norte-americana que linchava e enforcava negros e descaradamente iam para as igrejas batistas, presbiterianas, anglicanas, pentecostais e outras, aos sábados e domingos, para louvar e cantar ao Deus Cristão.

Igrejas como a de Pat Robertson são racistas, criminalizam as religiões africanas, disseminam ódio entre as pessoas, são lobos vestidos de cordeiros.



Um país rico no passado

Quem assiste hoje as tragédias que assolam o Haiti deve considerar que o país já foi um dos mais prósperos das Américas. Em 1804 o país conquistou sua independência da França, sendo a segunda república independente das Américas. A terra era rica, produzia cacau, tabaco, café, algodão, índigo e frutas para os franceses. Dizem que 50% do PIB da França na época era retirado do Haiti, país chamado por todos de “Jóia das Antilhas”.

Ao conquistar sua independência, o país passou a sofrer boicote dos países ditos “civilizados”, como acontece hoje com Cuba e Coréia do Norte. Os países poderosos se uniram para destruir a economia do Haiti, e a França exigiu nos tribunais internacionais que o país pagasse uma indenização de 150 milhões de francos.

O Haiti deixou de exportar seus produtos e pagou uma dívida inexistente ao longo de 80 anos, enriquecendo a França e empobrecendo os nativos. Somente em 1922 a dívida inflada foi considerada paga.

Aproveitando do enfraquecimento do país, os Estados Unidos da América ocuparam o Haiti militarmente em 1915, passando a roubar (comprar por preços baixos) as riquezas naturais até 1938. As tropas yanquees saíram do Haiti mas impuseram presidentes haitianos traidores como Duvalier pai e filho (Papa e Baby Doc) que se encarregavam de entregar as riquezas do país aos norte-americanos em troca da manutenção no poder.

O Haiti foi saqueado ao longo dos séculos pela França e pelos Estados Unidos da América. O golpe final foi a monocultura, a cana-de-açúcar (a exemplo da soja no Brasil), que destruiu a produtividade da terra e transformou o país no mais pobre do continente.



Kadafi mostrou a verdade

O presidente – e fundador - da União Africana, o líder Muamar Kadafi, foi o único a mostrar a verdade na questão da dívida histórica dos países poderosos com as nações exploradas e saqueadas nos períodos de colonização.

Kadafi tem uma proposta fundamental para resgatar a verdade e o equilíbrio nas relações entre os povos: os países que ficaram ricos saqueando as riquezas naturais dos povos colonizados devem indenizá-los. E ele vai mais fundo: “os países pobres da África não são pobres, ficaram pobres porque suas riquezas foram roubadas”.

A Líbia negociou e a Itália está indenizando o país por ter roubado e saqueado suas riquezas no passado. O mesmo deveria ser feito com todos os demais países, incluindo o Haiti.

A França e os Estados Unidos da América devem indenizar o Haiti pelas riquezas que saquearam, empobrecendo o povo haitiano às custas do enriquecimento dos franceses e norte-americanos.


José Gil

MDD - Curitiba - Brasil


Artigo publicado no site: www.amarchaverde.blogspot.com

O PMDB DO PARANÁLANÇA SÍTIO PARA 2010!!!

PMDB lança site inovador
para pré-temporada eleitoral de 2010

O PMDB Metropolitano da Grande Curitiba e Litoral lança neste sábado, 23, o portal www.pmdbparanaense.com. O novo portal de conteúdo noticioso, debates e propostas peemedebistas - segundo Doático Santos, presidente do diretório de Curitiba - vai ampliar a inserção do partido nas eleições de outubro. “Mais de 50% dos paranaenses já fazem uso da internet e a tendência e crescer ainda mais. E a nossa proposta é a de fazer um portal, focado em notícias e debates, e mostrar aos paranaenses, a importância das eleições de outubro”, disse Doático.

Os idealizadores, web-masters e editores do site estarão reunidos, a partir das 11h no Durva’s Bar (Avenida Vicente Machado, 786). Segundo Doático Santos, ao lado da televisão, a internet será de suma importância nas eleições de 3 e 31 de outubro. Pesquisa nacional do DataSenado ouviu 1.088 eleitores em 27 capitais. O levantamento mostrou que a internet já é o segundo meio de comunicação mais usado pelo cidadão para informar-se sobre política, atrás apenas da TV.

Impacto - Dois em cada três (59%) entrevistados consideram que a rede mundial terá grande impacto no pleito, sendo que entre os cidadãos que usam regularmente sites de notícias e participam de redes sociais (Orkut e Twitter, por exemplo), esse percentual sobe para 64%.

O levantamento buscou, ainda, avaliar a importância relativa dos meios de comunicação no esforço do cidadão para informar-se sobre questões políticas. A TV foi, de longe, o veículo mais usado (67%). Mas a internet apareceu em segundo lugar, com 19% das respostas válidas. O segmento “jornais e revistas” surgiu em terceiro, com 11%. A mídia rádio é preferida por apenas 4% dos entrevistados.

Redes sociais - Quase metade dos eleitores ouvidos (46%) acredita que a principal vantagem da internet nas eleições será a troca de informações e ideias entre os eleitores. A possibilidade de facilitar a comunicação entre candidatos e eleitores aparece em segundo lugar, com 28%. O mesmo percentual dos que responderam “divulgar as propostas dos candidatos”.

Os entrevistados que disseram usar a internet diariamente somaram 58% dos respondentes; 78% acessam sites de notícias e 53% participam de alguma rede social, como Orkut ou Twitter.

Agilidade - De acordo com o Data Senado, algumas características peculiares dessa nova mídia explicam sua crescente importância no campo da informação política. Uma é o fato de ela oferecer informação em tempo real, com vantagem adicional em relação ao rádio e à TV graças à possibilidade de recuperação de notícias e opiniões.

Outra característica importante seria a “diluição e a multiplicação dos papéis dos formadores de opinião, com a massificação da comunicação interativa entre desconhecidos, sobretudo jovens”, promovidas pelas redes de relacionamento.

Serviço
Lançamento do www.pmdbparanaense.com
Data: 23 de janeiro (sábado)
Horário: 11h
Local: Durva’s Bar
Endereço: Avenida Vicente Machado, 786

DILMA APRESENTA DIRETRIZES DE GOVERNO!!!

diretrizes
Dilma defende redução de gastos de custeio

22/01/2010 | 22:07 | agência estado


Provável candidata do PT à Presidência da República, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, deu nesta sexta-feira (22) algumas das diretrizes sobre o que seria seu plano de governo: disse que nunca foi contra parcerias entre governo e empresas, afirmou ser favorável à redução do gasto público e reiterou que os avanços do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva devem continuar.

"Muita gente está discutindo hoje o pós-Lula, como se fosse começar tudo outra vez no dia seguinte, depois do dia 31 de dezembro de 2010. Não é verdade. Nós entendemos no governo, o que é óbvio, que continuar quer dizer avançar. Mas há que entender o pós-Lula como a continuidade desse processo que levou o País a uma situação exemplar", afirmou à noite, durante a inauguração da nova sede do Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados e Tecnologia da Informação do Estado de São Paulo (Sindpd), na capital paulista.

"Nós agora podemos ter orgulho de ter iniciado talvez o processo mais revolucionário depois de (Getúlio) Vargas, Juscelino (Kubitschek) e de tantos outros presidentes - que cada um deu sua contribuição, sem sombra de dúvidas. Mas nós iniciamos um outro processo, de resgatar o País da imensa dívida social que ele tem, porque éramos um país muito desigual", disse ela, citando como exemplo a diminuição da pobreza e o aumento da classe média. "Isso é o fator que nos diferencia e é isso que temos de continuar.

A ministra aproveitou para se posicionar em relação a questões que são sempre tema de debates eleitorais entre candidatos à Presidência da República. "Nós no Brasil temos uma discussão que sistematicamente aparece. É a discussão da eficiência do Estado. E muitos dizem o seguinte: tem de reduzir custeio e tem de aumentar a parcela do investimento. Nós concordamos com isso", afirmou.

Para a ministra, "a forma mais consistente de reduzir custeio é assegurar a digitalização e a transparência dos serviços públicos". "Nós podemos reduzir de forma bastante significativa o custeio do governo brasileiro, de forma que tenhamos mais recursos para investir no que temos investido: todos os programas sociais e no crescimento econômico com distribuição de renda.

Uma das ideias apresentadas por Dilma é a digitalização do sistema de saúde. "Imaginem um sistema de saúde em que nós tivéssemos um cartão único e uma rede única centralizada em todo o Brasil. Nós saberíamos quantas vezes uma pessoa fez tomografia se está fazendo tomografia demais ou não, saberíamos, enfim, quanto se está cobrando por um serviço. Com isso estaríamos beneficiando diretamente a população e melhorando o serviço de saúde", exemplificou. "Isso se dá em qualquer área. Eu dei esse exemplo e poderia ter dado milhões de exemplos.

Ao falar sobre o programa que pretende dar à população acesso à banda larga de internet, a ministra ressaltou que o projeto será desenvolvido em parceria com empresas privadas. "Obviamente iremos fazer as parcerias necessárias. Nunca fomos contrários a parcerias. Mas teremos o direito de saber a que preço é possível cobrar na casa de cada um de nós.

A ministra fez um discurso em defesa do setor de Tecnologia da Informação (TI) e da importância de um país desenvolver essa área para assegurar um futuro melhor para seu povo. "Há uma relação entre TI e a democracia, necessariamente. Se nós a usarmos bem, conseguiremos fazer com que diferentes vozes, interesses, categorias e segmentos sociais desse País tenham expressão. Ela favorece a modernização do Estado e torna o Estado mais ágil", afirmou.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O RACISMO DA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL CONTRA O HAITI!!!

Internacional| 19/01/2010 | Copyleft

Os pecados do Haiti

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental. Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia vender plantações aos estrangeiros. O artigo é de Eduardo Galeano.

Eduardo Galeano

A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca idéia de querer um país menos injusto.

O voto e o veto
Para apagar as pegadas da participação estadunidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito com um voto sequer.

Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:

– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.

O álibi demográfico
Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Port-au-Prince, qual é o problema:

– Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.

E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro quadrado.

Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.

Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.

A tradição racista
Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia vender plantações aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis da invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".

O Haiti fora a pérola da coroa, a colónia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das Leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".

Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".

A humilhação imperdoável
Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos tinham conquistado antes a sua independência, mas meio milhão de escravos trabalhavam nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.

A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém comprava do Haiti, ninguém vendia, ninguém reconhecia a nova nação.

O delito da dignidade
Nem sequer Simón Bolívar, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar conseguiu reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete naves e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma idéia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.

Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pênis. A essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indemnização gigantesca, a modo de perda por haver cometido o delito da dignidade.

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.

domingo, 17 de janeiro de 2010

O ATEÍSMO COMO MILITÂNCIA SOCIAL!!!

O ateísmo como militância social
Janeiro 9, 2010
por Mário Maestri*

Dentro do respeito às crenças individuais dos homens e das mulheres de bem, a militância ateísta é dever social inarredável, para todos os que se mobilizam pela redenção da humanidade da alienação social, material e espiritual que a submerge crescentemente neste início de milênio, ameaçando a sua própria existência. Por mais subjetiva, introspectiva e sublimada que se apresente, a crença religiosa, jamais nasce, se realiza e se esgota no indivíduo. Ela é fenômeno parido no mundo social, que influencia essencialmente a ação individual e coletiva.

Em forma mais ou menos radical, mais ou menos plena, mais ou menos consciente, a crença religiosa dissocia-se da objetividade material e social. Ela desqualifica o doloroso esforço histórico que permitiu ao ser humano superar sua origem animal e, percebendo a si e à natureza, começar a conhecer as leis imanentes ao mundo, na difícil, necessária e inconclusa luta pela harmonização da existência social.

A crença religiosa nega as crescentes conquistas da racionalidade, da objetividade, da materialidade, da historicidade, encobrindo-as com as espessas sombras da irracionalidade, da subjetividade, do espiritualismo. Desequilibra a difícil luta do ser humano para erguer-se sobre as pernas e moldar o mundo com as mãos, forçando-o a ajoelhar-se novamente, apequenado, temeroso, embasbacado diante do “desconhecido”, sob o peso de alienação socialmente alimentada.

A crença religiosa droga o ser social com suas ilusões infantis de redenção conquistada através da obediência incondicional a estranho super-pai que, em muitas das mais importantes tradições espiritualistas, apesar de onisciente, onipotente e onipresente, e, assim, capaz de tudo dar aos filhos, lançou-os – no singular e no plural – em desnecessária desassistência, miséria e tristeza.

É porque é!

A essência anti-científica da religião, que não argumenta, pois se nutre da crença incondicional no arbitrário, materializa-se na oposição visceral, mais ou menos realizada, ao maior tesouro humano, a capacidade de diálogo e de compreensão tendencial do universo. Que o digam Galileu e Giordano Bruno! Daí sua histórica intolerância, desconfiança e ojeriza para com o pensamento científico. E, verdadeiro tiro no pé, seu constante e paradoxal esforço para afirmar que a ciência seja uma crença a mais.

O pensamento religioso nega e aborta o ativismo e o otimismo racionalistas e materialistas, nascidos da possibilidade de compreensão, domínio e transformação do mundo social e material. Impõe visão pessimista, quietista, introspectiva e infantil do universo, essencialmente petrificado e eternizado pela materialização de transcendência, à qual o homem deve apenas submeter-se e render-se, para merecer a liberação.

Para tais visões, o ativismo e otimismo social são incongruências, ao não haver imperfeição social superável, já que esta última nasce da própria natureza humana, habitada pelo mal e pelo pecado, devido ao desrespeito a interdições primordiais do pai eterno – olha aí ele de novo –, origem do pecado. Pecado que exige incessante expiação e penitência, lançando o ser religioso em triste e mórbido mundo de culpa, de submissão, de punição.

Ativismo e otimismo sociais impensáveis para uma forma de compreender a sociedade em que não há história. Ou o que compreendemos como história se mostra ininteligível, pois regida essencialmente por determinações transcendentais paridas e concluídas à margem das práticas humanas. Realidade à qual, segundo tal visão, podemos ascender, muito limitadamente, apenas através da revelação.

Quando deus mata o homem

Na sua petrificação a-social e a-histórica, um mundo chato, triste, deprimente, infantil, mórbido. Um universo que valoriza a paciência, a submissão, o imobilismo, o quietismo, a humildade, a transcendência, a espiritualidade, etc., valores e comportamentos historicamente explorados pelos opressores, no esforço de manter o mundo imóvel, através de alienação e submissão dos oprimidos, nesta vida, é claro, pois na outra, se sentarão à direita de deus-pai.

O ateísmo militante é necessário ao retrocesso da alienação, enormemente crescente em tempos de vitória da contra-revolução neoliberal. Ele impõe-se na luta por um mundo mais rico, mais pleno, mais livre, mais fraterno, em que o homem seja o amigo, não o lobo do homem. É imprescindível ao esforço de superação da miséria, da tristeza e da dor, materiais e espirituais, nos limites férreos da natureza humana historicamente determinada.

O ateísmo militante é democrático, pois tem como essencial meio de pregação a conscientização, individual e coletiva, da necessidade de assentar as práticas sociais nos valores da humanidade, da racionalidade, da liberdade, da solidariedade, da igualdade. Pregação racionalista e materialista que compreende que a superação da alienação espiritual será materializada plenamente apenas através da superação da alienação social e material.

O que exige intransigente luta política, cultural e ideológica pela defesa dos maltratados valores do laicismo, única base possível para convivência social mínima por sobre crenças religiosas, étnicas, ideológicas, etc. singulares. Laicismo agredido pela despudorada exploração mercantil, política e social, direta ou indireta, por parte das religiões novas e antigas, da crescente anomia popular contemporânea. O monopólio público da educação e da grande mídia televisiva e radiofônica, sob controle democrático, e a ilegalização do escorcho religioso popular direto são pontos programáticos dessa mobilização.

O Céu e o Inferno

O ateísmo militante é pregação de adultos, conscientes do limite e dos perigos de empreitada subversiva, dessacralizadora e mobilizadora, pois voltada para a necessidade do homem de retomar as rédeas de sua vida material e espiritual, no aqui e no agora. É jornada sem esperanças de premiações e de graças, na outra vida e sobretudo nessa, ao contrário do habitual nas religiões oferecidas como vias expressas para o sucesso individual, no rentável balcão da exploração da alienação.

O racionalismo militante é caminho difícil que premia os que nele perseveram com a experiência, mesmo fugidia, com o que há de melhor nos seres humanos, a racionalidade, a solidariedade, a fraternidade. Sentimentos e práticas vividos em forma direta, sem tabelas, pois a única ponte que liga os homens são as lançadas entre os próprios homens, construídos pela história à imagem e semelhança dos homens.

A vida racional é aventura recompensada sobretudo pelo inebriante desvelamento do encoberto pela ignorância e irracionalidade e pelo equilíbrio obtido na procura da harmonia social, por mais difícil e limitada que seja. Trata-se de caminho que permite, sem sonhar nem crer, seguir decifrando, alegre e desvairadamente, esse mundo crescentemente encantado e terrível. Viagem por esta vida terrena, valiosa, breve e única, sempre apoiada na lembrança de que, diante das penas e tristezas, não se há de se rir ou chorar, mas sobretudo entender, para poder transformar.

Uma experiência de vida que, mesmo bordejando não raro o inferno, ou sendo elevado fugidamente aos reinos dos céus, sabe-se que tudo se passa e se conclui nesse mundo, concreto, terrivelmente triste e belo, sobre o qual somos plena, total, sem desculpas e irremediavelmente responsáveis.


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* Mário Maestri, 61, é rio-grandense, historiador, ex-refugiado político, ateu, marxista, comunista sem partido, casado [há 32 anos], pai de dois filhos, com um neto. Viveu no Chile, México, Bélgica, Itália e Brasil. Trabalha no PPGH da UPF. Entre outros livros, escreveu, com a lingüista Florence Carboni: A linguagem escravizada [2ed. São Paulo: Expressão Popular, 2006.] E-mail: maestri@via-rs.net .

sábado, 16 de janeiro de 2010

2010 - ANO JOAQUIM NABUCO!!!

Um acervo à espera de reavaliação

Escritor, jornalista e diplomata brasileiro ainda é pouco publicado e estudado e aguarda a edição completa de sua obra

Daniel Piza


Numa carta de 31 de maio de 1883, Joaquim Nabuco (1849- 1910) escreveu que tinha prometido fazer da vida um protesto contra a escravidão, "nada querendo dela, esperando como os escravos o meu dia". O dia da Abolição veio, quase cinco anos depois, e daqui a quatro dias o que vem é o Ano Joaquim Nabuco, uma série de eventos e lançamentos para celebrar o escritor, jornalista, advogado, diplomata e líder mais hábil e vistoso da campanha abolicionista. Cem anos depois de sua morte, ele ainda é um personagem pouco publicado e pouco estudado em contraste com sua importância - ou com a de outros recentes homenageados, Machado de Assis (2008) e Euclides da Cunha (2009), dois amigos e companheiros da Academia Brasileira de Letras.

Nabuco ainda está à espera do dia em que toda sua obra estará integralmente disponível nas livrarias. A carta citada, por exemplo, permanece inédita em livro (leia nas págs. 6 e 7) e foi encontrada pelo Estado ao lado de muitas outras nos arquivos da Fundação Joaquim Nabuco (Funaj), no Recife, responsável pela programação do ano. É endereçada ao Dr. Ubaldino Amaral, que havia criticado o fato de Nabuco não viver no Brasil àquela altura, depois de ter deflagrado - na companhia de André Rebouças, José do Patrocínio e outros - o movimento pela Abolição em 1880, com a fundação da Sociedade Abolicionista Brasileira. Nabuco explica a Amaral que estava no exterior "trabalhando para viver" e propagando suas ideias, elaborando inclusive os textos do livro que vai intitular Abolicionismo. Também reafirma a importância de manter sua independência política e financeira, em nome da causa maior.

Outra carta inédita que a Funaj digitaliza no momento, de 15 de fevereiro de 1888, ano em que a Lei Áurea é finalmente assinada pela princesa Isabel, confirma o papel de Nabuco na articulação internacional do movimento: ali ele conta ao senador francês Victor Schoelcher que havia estado pessoalmente com o Papa Leão XIII e que contava com a opinião pública francesa para pressionar o Brasil a decretar o fim da escravidão. Como sempre em Nabuco, as cartas são muito interessantes porque investidas de sua determinação histórica e de sua prosa estilosa. "A nação quer se purgar de sua vergonha e de seu crime", escreve ao parlamentar francês. E associa a Abolição brasileira de 1888 à Revolução Francesa de 1789: para Nabuco, o fim da escravidão não era apenas a extinção de uma segregação racial, mas também a oportunidade de dar aos brasileiros os princípios de cidadania.

Pouco depois, porém, seus medos recrudescem. Em outra carta inédita, de 2 de janeiro de 1889, Nabuco, que se diz um "liberal monárquico", critica os republicanos por seu ódio racial, pois "falam abertamente em matar negros como se matam cães" e parecem querer uma guerra civil no Brasil pós-abolição. Nabuco, em realidade, esperava que a princesa Isabel levasse o Brasil para o Terceiro Reinado, sucedendo a D. Pedro II, e não admitia que os brasileiros pudessem querer a república em lugar da monarquia. De fato, os primeiros anos da República pareceriam confirmar parte de seus receios, pelo autoritarismo militar; ao mesmo tempo, não trouxeram esse velho temor dos conservadores brasileiros, a guerra civil e o esfacelamento do país em distintas nações, como havia ocorrido nos vizinhos que adotaram o regime.

O quarto documento obtido nos arquivos pernambucanos é um manuscrito de um discurso feito na Argentina. Não está datado, mas é certamente posterior a 1888, porque nele Nabuco se refere à vitória sobre o "feudalismo escravista" e afirma que a causa abolicionista faz parte de uma utopia, a "paz americana", celebrando assim o ânimo futurista do Novo Mundo. Aqui já temos o estado de espírito do Nabuco tardio, que, graças ao Barão do Rio Branco, se reconciliou com o governo e assumiu a vaga de diplomata em Washington em 1905. Também se reconciliou com suas raízes religiosas, que datam de sua infância no Engenho de Massangana, em Cabo de Santo Agostinho, a 48 km do Recife, engenho que está em reforma para o ano comemorativo e foi visitado pelo Estado.

Das mais de 700 cartas escritas por Nabuco, cerca de 450 foram coligidas por sua filha Carolina e publicadas em dois dos 14 volumes de suas Obras Completas (não tão completas assim), publicadas pela Ipê em 1949. Entre outros volumes de cartas de Nabuco estão as que trocou com Machado de Assis, prefaciadas por Graça Aranha (recentemente reeditadas pela editora Topbooks), e com os abolicionistas britânicos, organizadas por Leslie Bethell (mesma editora). Há, portanto, muitas dezenas de cartas inéditas em livro. Felizmente, boa parte estará disponível em acervo digital em 2010. O próprio Nabuco gostaria de ver esse dia chegar, graças à liberdade de uma ideia chamada internet.